Você já parou diante de uma pequena mata ou floresta e imaginou quantos seres vivos habitam naquele ecossistema?
Me diga uma coisa: qual fruta você comeu hoje ou ao longo da semana? Possivelmente você pensou em banana, maçã, laranja ou manga. Elas estão entre as frutas mais consumidas no Brasil, mas você sabia que nenhuma delas é nativa do nosso País?
Estamos acostumados com a oferta rápida dos supermercados e, com isso, deixamos de reconhecer as plantas e árvores dos parques e praças da nossa própria cidade. Essa cegueira botânica é resultado do nosso afastamento da natureza e da falta de experiências ao ar livre. Perdem os cidadãos, que desconhecem a biodiversidade local, e perde o nosso paladar, que deixa de provar frutos incríveis da Mata Atlântica — ignorados por grande parte da população que habita o próprio bioma. É o caso do araçá, do cambuci, da cereja-do-rio-grande, da grumixama, da guabiroba, da palmeira-juçara e da uvaia.
A uvaia (Eugenia pyriformis), por exemplo, é um fruto amarelo de polpa suculenta e rica em vitamina C. A palmeira-juçara (Euterpe edulis) produz um fruto muito semelhante ao açaí (que é amazônico), consumido da mesma forma: em polpas, sucos e na tigela. Ele é muito apreciado por aves como o tucano-de-bico-verde. A grumixama (Eugenia brasiliensis) lembra uma cereja roxa e bem doce. Já o cambuci (Campomanesia phaea), com sua casca verde e formato de “disco voador”, rende excelentes sucos. Há também espécies que conhecemos, mas raramente associamos à Mata Atlântica, como a pitanga (Eugenia uniflora), de tom vermelho-alaranjado e rica em vitamina C, e a jabuticaba (Plinia cauliflora), que cresce no próprio tronco e tem sabor adocicado.
Entre 70% e 90% das espécies de árvores em florestas tropicais dependem da ação de animais para a dispersão de suas sementes. Todos esses frutos alimentam a fauna local: aves como o pavó, a araponga, o surucuá, o sabiá e a jacutinga, além de mamíferos como a cotia e diversas espécies de primatas. Ao se alimentarem, esses animais dispersam as sementes, promovendo o surgimento de novas árvores e auxiliando na regeneração de áreas desmatadas, inclusive as urbanas!
Costuma-se dizer que a importância das árvores reside em gerar oxigênio, sombra, flores e frutos. No entanto, essa é uma visão utilitarista, que reduz a natureza a um bem material a serviço do ser humano. A relevância de uma floresta vai muito além do seu uso prático. Árvores, fungos, solo e animais integram um fluxo natural autossustentável. Cada organismo desempenha um papel na manutenção do ecossistema, formando uma comunidade na qual nenhuma espécie é superior à outra. Quando uma floresta desaparece, não perdemos apenas madeira, frutos ou sombra. Perdemos relações que levaram milhares de anos para se estabelecer.
Portanto, o valor de uma floresta e o seu direito de existir não dependem da sua utilidade para a humanidade. Trata-se de um sistema vivo, complexo e integrado. Em equilíbrio, ele sustenta a vida; quando degradado por desmatamento, caça ou queimadas, altera o clima em escala local e até global.
Diante da urgência das mudanças climáticas, proteger os remanescentes florestais e restaurar o que foi destruído são medidas indispensáveis. Paralelamente ao reflorestamento, a educação socioambiental é decisiva, aproximando o conhecimento da população por meio de aulas, atividades ao ar livre e práticas como a observação de aves. As pessoas precisam conhecer o que está à sua volta, a biodiversidade nas cidades, os alimentos que comem, pois, sem valorizar a natureza, fica mais fácil aceitar a destruição de florestas e áreas verdes e não é isso que queremos! Queremos pessoas mais sensíveis e empáticas sobre os seres que habitam a Terra, além dos humanos!
A boa notícia é que para aumentar nossa percepção de entorno e recuperar nossa conexão com a natureza, não exige uma grande mudança necessariamente. Podemos começar com uma pergunta simples: “Que árvore é essa?”. Depois outra: “Que fruto é esse?”. E então: “Quem se alimenta dele?”. Talvez uma passarinhada revele uma ave que você nunca tinha percebido. Talvez uma caminhada por uma praça faça você descobrir uma árvore que estava ali há anos! Talvez uma feira de produtos da sociobiodiversidade apresente um sabor que você nunca experimentou… uma uvaia, uma grumixama, um cambuci, uma polpa de juçara. Conhecer é uma forma de criar vínculo e esse é o primeiro passo para valorizar. Essa biodiversidade está mais perto do que imaginamos! A Mata Atlântica não é apenas uma floresta que precisamos cuidar, é também uma floresta que precisamos conhecer e talvez tudo comece com uma fruta! Então aqui fica um convite, vamos conhecer a natureza ao nosso redor?
Texto: Giulia “Passarinha” B. D’Angelo
Bióloga de formação e de coração, é Doutora em Biologia Animal. Trabalha com história natural e observação de aves silvestres, divulgação científica e educação socioambiental. Atua como educadora na SOS Mata Atlântica e na Formigas de Embaúba, ministra palestras e formações autônomas, e é coordenadora executiva do projeto “Eu rio, vivo”, em defesa dos direitos do Rio Atibaia
Fotos: Divulgação







