O pé de manga Bourbon, de nome científico Mangifera indica, plantado em Itu/SP em 1860, no pátio interno do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, tem muita história pra contar…
Crônica: João José “Tucano” da Silva
Infelizmente, depois de 166 anos, essa abençoada mangueira, pesando várias toneladas de celulose, não resistiu ao tempo e caiu por volta das 13h44 no último dia 5 de setembro de 2026, um sábado. Graças a Deus, a queda não causou nenhuma vítima e muito menos estragos no antigo patrimônio arquitetônico religioso que abriga, há vários anos, as irmãs da Congregação de São José, de Chambéry, da França.
Para não dizer que nada foi danificado, uma coluna de mármore, que continha sobre ela a imagem do Sagrado Coração de Jesus – esculpida com mesmo material – que ficava próxima à mangueira, singela homenagem prestada na década de 1909 pelas antigas alunas do Colégio à superiora provincial Madre Maria Teodora Voiron pelo cinquentenário de sua chegada ao Brasil em 1859, sofreu somente pequenas avarias.
O “estrago” maior mesmo foi emocional, pois a mangueira faz parte da memória afetiva de muitas pessoas que ali viveram, de tantas outras que por ali passaram, e daquelas que tiveram inclusive o privilégio de tocar em seu imenso tronco robusto e se assentar à sombra de seus longos galhos imensos; talvez até, de saborear seu tenro, saboroso e adocicado fruto. Ela marcou a vida de muita gente.
A verdade é uma só: a frondosa mangueira já deixou saudade! Não é pra menos, pois ela faz parte da história de Itu. Tornou-se um patrimônio natural, ambiental e paisagístico da cidade. Um ícone! Verdadeira relíquia que resistiu ao longo de todos estes anos.
Essa lendária mangueira foi plantada pela religiosa francesa, irmã Angelina Achard, prima de Madre Teodora, hoje venerável. Segundo relatos, a planta germinou a partir de um caroço da fruta que a religiosa havia consumido. É provável que sob à sombra dessa majestosa mangueira muitas orações e pedidos Madre Teodora fez a Deus, assim como não deixou de agradecer as inúmeras graças alcançadas.
Em primeiro lugar, temos que lembrar que essa notável mangueira viveu em três séculos: suas raízes foram “sepultadas” no solo no 19, passou pelos 100 anos no 20 e chegou ao 21 até o dia 5 de setembro de 2026, numa espetacular existência de fazer inveja.
Essa frutífera veterana foi contemporânea de incontáveis acontecimentos, pois “viu” inúmeras transformações ocorrerem em Itu, no Brasil e no mundo no transcorrer dos séculos: a primeira isolação do DNA humano, inauguração da Companhia de Estrada de Ferro Ytuana, realização da Convenção Republicana de Itu, inauguração oficial do Cemitério Municipal local, fim da escravidão no Brasil, Proclamação da República, iluminação pública da cidade com a inauguração da Companhia Ituana de Força e Luz, momento em que o município de Salto/SP deixou de ser Distrito de Itu por meio da Lei Provincial nº 68, edificações de prédios ituanos como o Colégio São Luiz, Mercado Municipal, Instituto Borges de Artes e Ofício (IBAO), Maternidade Borges, início das atividades das indústrias Mecânica e Fundição Irmãos Gazzola, Companhia Fiação e Tecelagem São Pedro e Tecelagem Maria Cândida, mudanças de presidentes e moedas no Brasil, duas guerras mundiais e vários outros conflitos bélicos pelo mundo a fora, bombas atômicas que arrasaram Hiroshima e Nagasaki – Japão -, acordos de paz, revoluções, Ditadura Vargas, início da indústria automobilística brasileira, Golpe Militar de 1964, Itu transformada em estância turística, fim da União Soviética, Queda do muro de Berlim, extraordinárias invenções tecnológicas como o rádio, avião, Raio X, Energia Nuclear, televisão, telefone, computador, aparelho celular, satélite espacial, Internet, drone e Inteligência Artificial (IA), a chegada do futebol e de levas de imigrantes ao Brasil para substituir a mão de obra escrava, início da industrialização no País, descoberta da Penicilina, reconhecimento científico da Pedreira de Varvito, construções do Cristo Redentor – Rio de Janeiro/RJ – e de Brasília (Distrito Federal), inauguração da nova Basílica de Aparecida, chegada do homem à Lua, assim como de novos papas ao Vaticano, visitas missionárias ao Brasil dos pontífices João Paulo II, Bento XVI e do carismático religioso argentino Francisco.
Essa longeva histórica mangueira inclusive “assistiu” ao momento em que a “frágil” fisicamente religiosa francesa, mas fortíssima na fé em Deus, recebeu o título de venerável em direção aos abençoados altares do mundo inteiro como santa futuramente.
Fui o primeiro jornalista a chegar no local no dia da tragédia, seguido pela colega de profissão Regina Lonardi, pelo fotógrafo Juliano Christofoletti e pelos profissionais da Defesa Civil – sub inspetor Teixeira e o GCM Surian -, e posso afirmar que fiquei estarrecido como o que meus olhos viram. Eu quase não acreditei no que presenciei naquele instante. Fiquei chocado e uma tristeza imensa invadiu o meu coração. Diria que foi um tremendo baque!
Diria ainda, com toda sinceridade, que não tem como não acreditar que o incontestável livramento nesse triste e terrível acidente foi um verdadeiro milagre. Eu não tenho dúvida de que as mãos protetoras de Deus estiveram presentes naquele momento. Também nem é preciso dizer que esse abençoado livramento se deu por meio da providente intercessão da venerável Madre Maria Teodora, considerada por todos nós ituanos como a nossa querida “santinha” francesa de Itu.
A manga é uma fruta exótica, originária do Sul e Sudoeste da Ásia – Índia, Myanmar (Birmânia) e Bangladesh. Cultivada há cerca de 5 mil anos, essa botânica milenar é a árvore símbolo da Índia. Trazida de Goa, colônia portuguesa na Índia, foi aclimatada por D. João VI na década de 1808, momento em que fixou raízes profundas em solo brasileiro.
Seu primeiro cultivo foi realizado nas proximidades da residência Real, na Quinta da Boa Vista, Capitania do Rio de Janeiro, vindo a se propagar para um morro vizinho que passou a ter o nome em alusão a essa espécie frutífera. Depois ganhou notoriedade e fama em razão da fábrica de chapéus Mangueira instalada, no passado, naquela região carioca. Dalí, foi um pequeno passo para se tornar conhecido internacionalmente, por meio do samba, como o famoso Morro da Mangueira.
Fonte de pesquisa: www.12.senado.leg.br
Fotos: Tucano, Regina Lonardi, Arquivo Revista Campo&Cidade, Juliano Christofoletti e Coleção João da Silva




































